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Brasil – Fiscal: condições iniciais mais sólidas e deterioração na margem

 

A elaboração de cenários para a economia brasileira depende da correta avaliação da política fiscal. Após 1994, a adoção do  Plano Real expôs as fragilidades das finanças públicas brasileiras, ao impedir o financiamento de déficits públicos pela inflação.

Somente a partir do último trimestre de 1998, o governo Fernando Henrique implementou um dos pilares mais importantes da atual política econômica: o cumprimento de metas de superávit primário suficientes para garantir uma trajetória crível de redução da dívida pública como proporção do PIB.

Mais tarde, o governo Lula, em seu primeiro mandato reforçou essa política ao praticar superávits primários mais elevados. De maneira geral, a percepção de que o governo seria capaz de conduzir a política fiscal de forma austera permitiu a redução do prêmio de risco associado à economia brasileira e permitiu a extensão de prazos e melhoria do perfil da dívida pública federal

Diante da recente deterioração da política fiscal – em particular, da rápida redução do superávit primário e da ampliação significativa da dívida pública bruta – tentaremos avaliar os possíveis impactos dessa mudança de postura fiscal sobre o desempenho da economia.

Em nossa visão, a sustentabilidade da dívida pública não será questionada, ao menos no curto prazo, em função: (i) do crescimento da economia em 2010, que deverá atingir 6,3% em nossas projeções, e (ii) de a deterioração fiscal pós-crise ter sido mais branda no Brasil, quando comparado aos demais países. Entretanto, a questão fiscal não diz respeito somente à solvência pública. A redução permanente do superávit primário, em um ambiente de expansão continuada dos gastos correntes do setor público, terá impactos deletérios sobre a trajetória de redução da taxa de juros real e sobre a capacidade de ampliação dos investimentos públicos prejudicando, o crescimento potencial da economia brasileira.

 

Menor vulnerabilidade fiscal e melhora da dinâmica da dívida

 

A dívida líquida do setor público, que considera os passivos e os ativos dos governos federal, estaduais e municipais, além do Banco Central e das estatais (excluindo-se a Petrobras), alcançou 43,0% do PIB em nov/09, um recuo de 9 p.p em relação à média de 2002. Esse movimento pode ser atribuído tanto à contabilização de expressivos superávits primários (equivalente a 3,42% do PIB, em média, de jan/03 a nov/09), quanto ao crescimento real do PIB (em média, entre 2003 e 2008, o avanço foi de 4,2% ao ano).

Quando analisamos a composição da dívida líquida (ver gráfico 1 abaixo), notamos a redução do endividamento externo líquido, movimento associado ao acúmulo de reservas internacionais no período. Contudo, verifica-se também um ponto de inflexão nessa trajetória de queda, a partir de nov/08, tema que abordaremos adiante.

 
Gráfico 1
Dívida líquida do setor público (% do PIB)
Fonte: BCB, Banco BBM / Data: 11/2009
 

 

 

Observamos uma melhora no perfil da Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi), tornando a dinâmica da dívida líquida anti-cíclica. Dois movimentos da DPMFi nessa direção merecem destaque: (i) a redução da parcela indexada à taxa de câmbio, que passou de 37% do estoque da dívida para 0,7% entre 2002 e nov/09 e (ii) o aumento das parcelas pré-fixada e indexada a índices de preços de, respectivamente, 2,2% para 32,5% e  12,5% para 28,2%, no mesmo período. Essa mudança na composição do estoque, combinada à reversão do endividamento externo, alterou o impacto de depreciações cambiais e da política monetária sobre a dinâmica da dívida, contribuindo para diminuir o risco fiscal. Se em 2002 uma apreciação de 10% do dólar aumentava em 2,2 p.p do PIB a dívida líquida, hoje o mesmo movimento reduz a dívida líquida em 1,1 p.p do PIB. Adicionalmente, o perfil de vencimento da DPMFi foi alongado: a parcela com vencimento em até 12 meses reduziu-se de 41,1% em 2002 para 25,9% em nov/09, enquanto a parcela com vencimento acima de 5 anos elevou-se de 12,4% para 17,2%.

 
Gráfico 2
Composição da DPMFi, segundo indexadores (participação em %)
Fonte: BCB, Banco BBM / Data: 11/2009
 
Gráfico3
Variação, em pontos percentuais, da razão entre a dívida líquida
do setor público e o PIB, para uma valorização do dólar de 10%
Fonte: BCB, Banco BBM / Data: 11/2009
 

Esse movimento de redução do endividamento e melhora da composição foi possível em função de um cenário externo extremamente benigno entre 2004 e 2008, com destaque para o crescimento acelerado da economia mundial e a forte elevação no preço das commodities, com consequente melhora dos termos de troca da economia brasileira.

Nesse ambiente, a manutenção, por parte do governo Lula, do arcabouço de políticas macroeconômicas – câmbio flutuante, superávits primários e metas de inflação com autonomia, ainda que informal, do BC – implicou a redução do risco de crédito do governo.

 
 

Olhando para frente e analisando a evolução da dívida líquida a partir de algumas hipóteses que julgamos conservadorasi, o superávit primário necessário para estabilizar a razão dívida líquida sobre o PIB é de 2%. Acreditamos que este nível do superavit é de fácil consecução em um ambiente de crescimento econômico robusto, como o que projetamos para o Brasil em 2010.

 
Gráfico 4
Dívida líquida do setor público (% do PIB)i
Fonte: BCB, Banco BBM / Data: 11/2009

iEspecificamente, nossas hipóteses para o exercício de sustentabilidade da dívida são: (i) crescimento do PIB de -0,2% em 2009, 6,3% em 2010 e 3,5% entre 2011 e 2015; (ii) taxa real de câmbio constante; (iii) taxa de juros nominal de 10,5% em 2010, 12% em 2011, 11,8% em 2012 e 11,5% entre 2013 e 2015.
 

Aumento expressivo do endividamento bruto e deterioração fiscal em 2009

 

Entretanto, diminuiu bastante a margem de manobra da política fiscal. A redução expressiva do superávit primário, que recuou de um resultado acumulado em 12 meses de 4,18% do PIB em out/08 para 1,41%do PIB em nov/09, merece destaque nesse contexto.

Parte dessa piora deveu-se à queda das receitas em 2009, tanto em função das isenções fiscais adotadas em resposta à crise, quanto da própria desaceleração da atividade econômica. Entretanto, a maior parte dessa deterioração pode ser atribuída ao aumento dos gastos do governo central no período. Utilizando-se os meses de out/08 e nov/09 como referência, o maior aumento se deu na rubrica “gastos com pessoal e encargos sociais”, que subiu de 4,2% para 4,9% do PIB. Os gastos com “benefícios previdenciários”, por sua vez, passaram de 6,7% para 7,2% do PIB. A elevação do salário mínimo e a política de recomposição salarial do funcionalismo público explicam grande parte desses aumentos. Por fim, as “despesas de custeio e capital” subiram de 5,6% para 6,2% do PIB. Nessa rubrica estão incluídos os gastos com investimento, que passaram de 0,94% em out/08 para 1,05% do PIB em nov/09, mantendo uma participação no PIB ainda pouco expressiva.

Embora a deterioração fiscal possa ser classificada como modesta quando comparada a outros países – por exemplo, entre ago/08 e nov/09, a dívida líquida como proporção do PIB subiu de 37,9% para 54,2% nos EUA, enquanto no Brasil subiu apenas de 40,5% para 43% –, chama a atenção a sua concentração em aumento de gastos correntes, que são mais rígidos, e não de investimentos. Assim, é baixa a probabilidade de reversão dessa política fiscal expansionista em um momento de retomada da atividade econômica (projetamos crescimento de 6,3% para o PIB em 2010). Nesse contexto, caberá à política monetária dar a maior contribuição na moderação do ritmo de crescimento da demanda agregada, que está acima do crescimento do potencial de economia brasileira neste momento. Em nossa visão, essa combinação de política econômica é menos eficiente, à medida que mantém elevado o nível das taxas de juros reais, prejudicando o setor privado.

 

Vamos agora avaliar outro fato de deterioração fiscal: a evolução da dívida bruta do Governo Geral, cuja elevação de 55,1% do PIB para 64,1% entre dez/06 e nov/09 contrasta com a relativa estabilidade do endividamento líquido no mesmo período (de 45% para 44%).

 
Gráfico 5
Dívida bruta e dívida líquida do Governo Geral * (% do PIB)
Fonte: BCB, Banco BBM / Data: 11/2009

* O Governo Geral abrange Governo Federal, governos estaduais e governos municipais. Exclui Banco Central e empesas estatais.
 
 

Quando observamos a evolução do endividamento bruto a partir de 2007, podemos dividir o período em dois momentos distintos:

 
 

I - Até Set/08 - Acumulação de reservas em um cenário de abundância de capitais e boom de commodities:

 

O forte ingresso de capitais, aliado aos superávits em transações correntes, gerou superávits de US$ 30,6 e 87,5 bilhões no balanço de pagamentos em 2006 e 2007, respectivamente. A política de acúmulo de reservas, que alcançaram US$ 206,5 bilhões em set/08 (ante US$ 53,8 bi em dez/05) teve como contrapartida a elevação das operações de esterilização por parte do BC, de modo a neutralizar os efeitos expansionistas do influxo de moeda estrangeira. Em particular, as operações compromissadas, um dos instrumentos utilizados pelo BC para enxugar o excesso de liquidez monetária na economia, passaram de 3,2% do PIB em dez/06 para 9,9% do PIB em set/08. Apesar de não possuir impacto na dívida líquida (pois as reservas são um ativo), o aumento da dívida bruta naquele momento produziu dois efeitos importantes:


  1. piora do perfil da dívida, em função do prazo mais curto de vencimento das operações compromissadas: em nov/09, 82,7% dessas operações venciam em menos de 3 meses. Com o crescimento verificado em 2009, o estoque de compromissadas alcançou R$ 468 bi em nov/09, o que corresponde a 15,2% do PIB

  1. o aumento das reservas traz um ônus fiscal dado fundamentalmente pela diferença entre o custo de captação do Tesouro Nacional (Selic) e a remuneração das reservas (basicamente títulos do governo americano). Esse ônus não é computado na estatística de superávit primário, que desconsidera as despesas líquidas com juros, mas impacta o déficit nominal.


De qualquer forma, é inequívoco o benefício de possuirmos reservas elevadas, tanto pela redução do custo de financiamento na economia como um todo, como no enfretamento de crises financeiras.

 
 
Gráfico 6
Reservas internacionais (US$ bi.) e operações
compromissadas do BCB (% do PIB)
Fonte: BCB, Banco BBM / Data: 11/2009
 

II - A partir de Set/08 - Capitalizações de bancos públicos, sobretudo o BNDES.

 

O crédito do Tesouro junto ao BNDES passou de 0,9% do PIB em set/08, momento de agravamento da crise financeira, para 4,2% em nov/09. Da mesma forma que a acumulação de reservas, a capitalização do BNDES tem impacto neutro sobre a dívida líquida, mas o ônus fiscal dessas operações também é elevado em função: (i) do diferencial de juros, dado, fundamentalmente, pela diferença entre o custo de captação (Selic) e a taxa de juros praticada pelo BNDES (TJLP); e (ii) de o risco de crédito do BNDES ser superior ao dos ativos que usualmente integram as reservas internacionais – além de ser positivamente correlacionada com o ciclo econômico brasileiro, tornando a evolução da dívida pública mais pró-cíclica em relação à atividade econômica doméstica.

 
 
 

Nesse contexto de retomada da economia, seria desejável o retorno aos superávits primários observados no período pré-crise. Entretanto, nossa projeção para 2010 é de um superávit de 2,5% do PIB (ante uma meta de 3,3%, com possibilidade de abater 0,68 p.p. referente ao PPI e PAC), recuperando-se em comparação a 2009, quando deve ter sido registrado um superávit de 1,7%, mas ainda abaixo da média histórica para o período de 2003-2008 de 3,5% do PIB.

Essa melhora deverá ocorrer em função de uma recuperação da arrecadação, impulsionada pelo crescimento da economia em 2010: após recuar 6,1% em termos reais em 2009, as receitas administradas deverão apresentar crescimento de 14% em 2010.

A projeção apresentada no Relatório de Inflação do Banco Central para 2010, de dez/09, considera um superávit primário “efetivo” de 2,62% do PIB (meta de 3,3% do PIB, com possibilidade de abatimento de 0,68 p.p). Para 2011, as projeções de inflação consideram um superávit primário de 3,3% do PIB, sem ajustes. A projeção de inflação para 2011, horizonte que se tornará cada vez mais relevante para a condução da política monetária ao longo de 2010, situa-se em 4,6% no cenário de referência. No cenário de mercado, que contempla uma elevação da taxa de juros em 200 bps (entre outras variáveis, obtidas a partir das expectativas de mercado), a projeção é de IPCA de 4,3% em 2011.

Em ambos os cenários, o BC trabalha com uma trajetória fiscal menos expansionista, que contribui para a manutenção da inflação  próxima ao centro da meta, explicitando os limites inerentes às escolhas da política fiscal.

 

No mercado de moedas, o cenário permanece positivo para os fluxos de capital direcionados aos países emergentes, em especial ao Brasil, tendo em vista a recuperação mais rápida da economia doméstica e o ambiente global de redução da aversão ao risco e ampla liquidez. Desta forma, mantivemos posições compradas em real e vendidas no dólar americano.

Entretanto, conforme já havíamos comentado em nossa carta de novembro, a aceleração recente no crescimento das importações e elevação das remessas de lucros e dividendos ampliarão de forma expressiva nosso déficit em transações correntes em 2010. Adicionalmente, com a divulgação de dados benignos nos EUA, indicando melhora no mercado de trabalho e das vendas no varejo, aumenta a percepção de que a situação econômica pode estar se normalizando naquele país, o que tende a fortalecer o dólar americano. Neste contexto, optamos por reduzir o risco alocado nas posições de moedas.

O cenário para a política monetária caracteriza-se por uma inflação benigna no curto prazo. A inflação de tradables permanece bem comportada e a elevada inércia dos preços administrados e dos serviços contribuirá para manter baixa a pressão inflacionária até meados de 2010. Nesse cenário, mantivemos uma alocação vendida na taxa de juros real de curto prazo.

Contudo, as divulgações econômicas no mês de dezembro corroboraram o cenário de retomada bastante acelerada da atividade econômica, com diminuição da ociosidade no mercado de trabalho e na utilização da capacidade instalada na indústria, o que eleva os riscos para a inflação no médio prazo. Assim, no final do mês, começamos a considerar uma alocação comprada na taxa de juros nominal em prazos intermediários.

 
 
 

Após um mês de novembro muito positivo para a bolsa, dezembro foi caracterizado por uma maior volatilidade. Por conta disso, em semelhança ao que já vínhamos realizando nos últimos meses, nossas posições mantiveram-se concentradas em empresas de maior liquidez, permitindo-nos maior flexibilidade para aproveitar possíveis distorções no mercado. Por outro lado, nas empresas de menor liquidez, não enxergamos rendimentos atrativos que fossem compatíveis com o risco que seria assumido.

No fundo BBM Valuation, mantivemos em média uma posição comprada de 95%, dado que não verificamos nenhuma ocorrência nos cenários global ou domésticos que justificasse uma mudança de postura com relação ao peso relativo das posições comparadas e vendidas na carteira.

Embora não tenhamos alterado nossa avaliação de cenário ao longo do mês de dezembro, o fundo desfez-se de algumas posições overweights na medida que as cotações alcançaram os preços-alvos considerados razoáveis por nossa análise fundamentalista. Reduzimos nossas posições no setor aéreo e no de saúde.

Ainda com relação à abertura setorial, nossas posições underweight em siderurgia, mineração e petróleo também geraram ganhos contra o índice no mês. Por sua vez, posições específicas dentro dos setores financeiro e de petróleo geraram ganhos expressivos.

No fundo BBM EH 30, ao longo do mês de dezembro, mantivemos uma posição comprada em torno de 7%, aumentando sua posição em relação ao mês anterior. Os maiores ganhos do fundo vieram de spreads intra-setoriais nos seguintes setores: financeiro, elétrico e de consumo. Spreads contra o Índice no setor imobiliário renderam outra boa parte dos ganhos no mês. Posições direcionais compradas nos setores de telecomunicações e imobiliário também contribuíram significativamente para a boa performance do fundo. Ao longo do mês, o fundo manteve uma boa diversificação, com 90 ações em 11 setores, rendendo um ganho de 1,51%, contra 0,72% do CDI. O fundo acumulou nos últimos 12 meses um ganho de 26,9%, 272% do CDI.

 
 
 

Em dezembro, o fundo BBM Allocation apresentou um retorno de 1,36%, equivalente a 188% do CDI, acumulando rentabilidade de 20,19% ou 204% do CDI em 2009. Assim como no mês passado, a maior contribuição para o resultado do fundo veio das classes de renda variável e de long shorts.

O portfolio sofreu alteração em virtude do aumento nas classes de fundos long shorts e de renda variável com inclusão de dois fundos novos. Com isto, a carteira encerrou o mês composta por 9 fundos Macro (73%), 3 fundos Long Short (17%), 4 fundos de Renda Variável (7%) e 1 fundo Referenciado DI (3%).